CATARINA da Aústria


A primeira coisa que notei e me impactou quando ao ler um livro sobre os Judeus em Lisboa encontrei este retrato foi o olhar. Estes são os meus olhos! - pensei. Neste retrato o olhar é idêntico ao meu. O rosto tem diferenças mas também tem semelhanças na generalidade dos traços: testa alta, tendência para duplo queixo, rosto de "bolacha". Mas o olhar...


Hoje venho falar de Catarina da Aústria, cuja semelhança comigo não é motivo para enaltecer esta mulher. Ela tem méritos atrás de méritos. Catarina tornou-se rainha de Portugal em circunstâncias dolorosas que ela própria deve ter lamentado: por morte de todos os seus descendentes e esposo, com excepção de um neto de três anos: Sebastião. 

Assim sendo, em 1557 assume a regência do reino durante a menoridade do neto, o infante D. Sebastião, até 1562, altura em que entregou o cargo ao Cardeal D. Henrique, seu conselheiro e tio-avô de Sebastião. Já havia desejado fazê-lo dois anos antes, mas era tão admirada que cedeu a pedidos das cortes para permanecer como Rainha. 

Catarina é vista como uma mulher regente muito eficaz e também muito atenta com a educação do neto, procurando os melhores mestres para formarem um príncipe digno do trono e das virtudes associadas a um responsável máximo de Estado. Tinha as suas divergências com o neto e a sua preocupação pelo infante centrava-se no seu fascínio desde cedo por batalhas e vida de cavalaria. 

A ser verdade veio a provar-se uma preocupação com muita razão de ser: Apenas seis meses depois de Catarina falecer, o que aconteceu a 6 de Fevereiro de 1578, seu único descendente a quem tanto se dedicou associou-se ao ex-sultão Mulei Mohammed numa batalha onde se pretendia derrubar o então chefe islâmico, (tio de Mulei) e acabou por desaparecer em Alcácer-Quibir, África. Uns acreditam que foi morto, outros capturado.  Até hoje, um mistério. Ou se calhar, um mito de mistério, fruto do profundo desejo do povo que queria ver o Rei desaparecido retornar para assumir um trono que restauraria a independência portuguesa que, por falta de sucessão, pertenceu à dinastia espanhola por 80 anos. 

Catarina havia se retirado da regência mas permaneceu ativa nas suas lides religiosas e de caridade. Em 1563 recebe por parte do Papa uma rara e prestigiada rosa de ouro - até hoje oferecidas pelo Vaticano como símbolo de estima aqueles que se dedicam muito à fé (O santuário de Fátima presentemente detém quatro destas oferendas). No quarto domingo de quaresma as rosas de ouro matizadas de vermelho são abençoadas e perfumadas com almíscar, depois oferecidas. Se assim se passou com a que foi oferecida a Catarina, não se sabe. A joía não sobreviveu aos dias de hoje. 
   
Dona Catarina da Áustria, Rainha de Portugal com Santa Catarina de Alexandria.
Pintura de Cristóvão de Lopes (1516-1594) Convento da Madre de Deus, Lisboa.

QUE FEZ CATARINA?

Em 1569 Catarina dá início à construção da capela-mor do mosteiro dos Jerónimos. A que havia sido projectada por Diogo Boitaca foi mandada demolir para ser substituída por outra, traçada por Jerónimo de Ruão e terminada de construir em 1571. 

Enquanto Rainha Consorte, em 1519 Catarina fundou em Lisboa o Colégio dos Meninos Órfãos, dotando-o de mestres para que educassem e instruíssem as crianças. Como precisamos de algo semelhante nos dias que correm!

Mandou também construir os mosteiros do Vale Bem-feito, em Óbidos, para os religiosos monges da ordem de São Jerónimo que até então viviam em clausura contemplativa no arquipélago das Berlengas. Por sua decisão construíu-se também os mosteiros de Pedrogão dos Dominicanos e a Igreja de Santa Catarina, entre outros. 

Em carta datada de 11 de Agosto de 1560, manda que todos os estudantes portugueses das universidades de Paris, Lovaina e Salamanca regressassem a Portugal para ingressar na universidade de Coimbra, o que muitos terão feito em demonstração de respeito pela memória do rei D. João III, de quem ficou viúva. 

Quem sabe se, até hoje, a Universidade de Coimbra mantém o seu prestígio graças a Catarina e sua esperteza inicial para criar reconhecimento académico mundial a uma universidade portuguesa?

Nos finais do seu reinado Catarina consegue expulsar, através do militar Estácio de Sá e do seu tio, o governador geral no Brasil, Mem de Sá, a presença da colónia Francesa. Com a expulsão, é fundada a 1 de Março de 1565 a cidade S. Sebastião do Rio de Janeiro, hoje simplesmente chamada de "Rio".  Seu nome deriva da presença dos Portugueses e surge em homenagem ao santo Padroeiro e ao neto de Catarina, o rei de Portugal, D. Sebastião. 

Junto ao Papa Catarina consegue a elevação da Igreja de santa Catarina de Goa a arcebispado e a criação dos Bispados de Santa Cruz, Cochim, Assunção e Malaca. 

Nos assuntos externos, empenhou-se na conservação dos territórios orientais, ordenando o envio de armada para manter as leis do Reino. No norte de África a posse de território pelo reino continuava a ser sujeita a tentativas de expulsão. O rei de Marrocos ergueu um cerco com um exercito numeroso mas os territórios foram defendidos com sucesso pelo capitão Rui de Sousa, com o apoio militar concedido por Catarina. Catarina atuou com prudência aquando na escolha de ministros, selecionando personalidades ativas mas desinteressadas, como Gil Eanes. Ela premiou os beneméritos e soube manter o Reino de Portugal, que desapareceu logo de seguida com a morte do seu neto, sem descendência oficial.  


Talvez este seu lado benemérito se deva à sua origem sofrida. A pesar de ter nascido na realeza, filha de Joana "a louca" e Filipe I de Castela "O belo", o seu pai faleceu aos 27 anos, antes dela ter nascido. Mas os fatos sobre isto são vagos. Filipe morreu em 1506, após contrair febre - é o que se diz e Joana, que era super ciumenta, vigiava o marido para tentar impedir suas traições com outras mulheres passou a vestir-se de viúva e a agir erraticamente. Ele era "belo" e ela era a "louca".  Joana, que originalmente era a rainha e Filipe seu consorte, apontada como inconsolável, foi apelidada de louca e mantida em isolamento com Catarina. Catarina e a mãe viveram confinadas no Castelo de Tordesilhas a mando do seu avô Fernando de Aragão e pelo irmão, Carlos V..  Ali ficou até aos 18 anos de idade, sendo depois mandada ser liberta pelo irmão Carlos, imperador, em 1518. Porém ela decidiu permanecer com a mãe por consideração, vindo a sair mais tarde para se casar, por arranjo do irmão que pretendia solidificar alianças políticas, com o Rei D. João III de Portugal. O casamento ocorreu em 1525, em Estremoz, na difícil e aterradora época em que a peste negra ameaçava todos os reinos, dizimando muitos. O casal teve nove filhos mas todos vieram a falecer. Que estranho! Desses filhos, um deixou descendência: o infante Sebastião. Mas também ele não durou muito e partiu sem descendência. Portugal sem rei ou rainha, foi para as mãos dos espanhóis. O povo nunca se resignou e nasceu o "Sebastianismo" - a lenda de que o rei D. Sebastião não morreu em Alcácer Quibir e surgiria novamente para reclamar o Reino de Portugal. 

Nos últimos anos de sua vida, Catarina da Austria retirou-se para o Convento de Xabregas, em Lisboa, vindo a falecer por lá. Foi sepultada sem grande pompa, de acordo com o seu desejo, na Capela-mor do Mosteiro dos Jerónimos, ao lado do seu marido, D. João III. A mesma capela que mandou construir, no mosteiro de Santa Maria de Belém, vulgarmente conhecido apenas por "Mosteiro dos Jerónimos" devido à ordem de São Jerónimo que ocupou o edifício por séculos. Pela sua vocação contemplativa, era ali o local onde os marinheiros iam para rezar pelo sucesso das expedições marítimas portuguesas. Uma altura de forte crença religiosa, que catalisou todas as decisões. 

Catarina foi, acima de tudo, uma mulher FORTE. Que não desistiu diantes das muitas adversidades da vida. Aguentou ver partir cada um dos seus nove filhos. E o marido. Talvez devido à sua forte crença e fé de que o espírito deles estava com Deus e não podia estar melhor. Se dedicou até ao último suspiro à sua fé e à sua sina na terra como regente de um Reino, mãe, esposa, filha, avó. 

Uma GRANDE mulher. 

 

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